Receber o diagnóstico de diabetes tipo 1 muda completamente a rotina de uma criança e de toda a família. A partir desse momento, medir a glicemia, aplicar insulina, calcular carboidratos e planejar refeições passam a fazer parte do dia a dia. No Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB), porém, o tratamento vai além dos cuidados médicos. A proposta é ensinar pacientes e responsáveis a conviver com a doença de forma segura, independente e com qualidade de vida.
No Dia Nacional do Diabetes, celebrado nesta sexta-feira (26), o hospital destaca um modelo de assistência baseado no acompanhamento multidisciplinar, que reúne endocrinologistas, nutricionistas, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais e técnicos de enfermagem para atender cada paciente conforme sua realidade.
Segundo a endocrinologista pediátrica e responsável técnica pelo Programa de Diabetes do HCB, Paola Brugnera, não existe um tratamento que sirva para todos. “Cada criança possui uma rotina, hábitos alimentares e necessidades diferentes. Por isso, o cuidado precisa ser individualizado. Nossa equipe acompanha o paciente em diversas áreas, porque somente prescrever insulina não resolve todos os desafios que o diabetes impõe”, explica.
A alimentação faz parte desse processo de aprendizagem. Em vez de impor uma lista de proibições, o trabalho desenvolvido pela equipe busca ensinar pacientes e familiares a compreender os alimentos e fazer escolhas equilibradas para toda a casa. “A educação nutricional vai muito além de dizer o que pode ou não ser consumido. Ela ajuda as famílias a entender a composição dos alimentos, a frequência adequada de consumo e como tornar a alimentação mais saudável. A criança com diabetes não precisa comer de forma diferente dos demais integrantes da família”, afirma a nutricionista clínica Ana Rosa Arruda.
Para ampliar esse conhecimento, o HCB promove palestras sobre contagem de carboidratos, estratégia que permite ajustar corretamente a dose de insulina de acordo com cada refeição. O aprendizado oferece mais flexibilidade para participar de aniversários, passeios e outras atividades comuns da infância.
Outro diferencial é o Dia ABCD — Aprendendo Brincando com o Diabetes. Durante o evento, crianças e adolescentes participam de atividades recreativas e educativas enquanto compartilham experiências com outros pacientes que enfrentam os mesmos desafios. “Muitas vezes, eles chegam acreditando que são os únicos a viver essa realidade. Quando encontram outras crianças com diabetes, criam vínculos, trocam experiências e percebem que podem levar uma vida ativa e feliz”, destaca Paola.
A iniciativa também envolve pais e responsáveis. Em uma das dinâmicas, eles experimentam realizar medições de glicemia e aplicações de insulina, vivenciando parte da rotina dos filhos. “Quando os responsáveis passam por essa experiência, conseguem compreender melhor os desafios diários das crianças. Isso fortalece o diálogo e reduz atitudes baseadas apenas na cobrança”, observa a médica.
O cuidado emocional é outro pilar do programa. A psicóloga hospitalar Natália Paz explica que o impacto do diagnóstico costuma provocar medo, insegurança e dificuldades de adaptação, exigindo acompanhamento especializado desde os primeiros atendimentos. “Conviver com o diabetes significa fazer escolhas o tempo inteiro. A criança precisa organizar a alimentação, levar insulina quando sai de casa e manter uma rotina de cuidados permanentes. Esse processo também afeta pais e cuidadores, que precisam de suporte emocional”, afirma.
Além dos atendimentos individuais, a equipe promove rodas de conversa e atividades lúdicas para incentivar a expressão dos sentimentos e fortalecer a autoestima dos pacientes. “O nosso objetivo é que essas crianças desenvolvam autonomia para cuidar da própria saúde, sem deixar que o diabetes limite seus projetos de vida”, completa a psicóloga.
A família de Fernanda da Silva, de 10 anos, conhece bem essa transformação. Diagnosticada há quatro anos, ela encontrou no acompanhamento multidisciplinar o apoio necessário para lidar com a doença. “O atendimento conjunto da equipe fez toda a diferença. As orientações da nutricionista, da psicóloga e dos médicos mudaram nossa forma de enfrentar o tratamento, e as palestras ajudam muitas famílias que não têm acesso a esse tipo de informação”, relata a mãe, Rafaela Silva.
Fernanda diz que hoje já participa ativamente dos próprios cuidados. “Aprendi a controlar minha glicemia, fazer a contagem de carboidratos, acompanhar minhas metas e registrar tudo o que consumo durante o dia.”
Quem também passou pelo programa foi Victor Ferreira, que completou 18 anos em 2026 e iniciou a transição para outra unidade da rede pública de saúde. Para ele, o acompanhamento recebido no HCB mostrou que o diabetes não precisa impedir a realização de sonhos. “O Dia do Diabetes é importante porque ajuda as pessoas a entender que quem tem diabetes pode estudar, praticar esportes e conquistar qualquer objetivo. Hoje existem recursos e conhecimento que permitem viver normalmente”, afirma.
A data também serve para conscientizar a população sobre os sinais iniciais do diabetes tipo 1. Sede intensa, perda de peso sem explicação, aumento da frequência urinária e fraqueza estão entre os principais sintomas. O diagnóstico precoce, realizado por meio de exames simples, reduz o risco de complicações graves e permite o início rápido do tratamento.
