Mais de 500 toneladas de resíduos produzidos anualmente deixaram de ser apenas uma despesa para o Sesc-DF e passaram a movimentar uma cadeia que combina reciclagem, geração de renda e inclusão social. O modelo adotado pela instituição ganhou um novo capítulo com o lançamento do programa Cata Vida, em Ceilândia, voltado principalmente aos catadores que trabalham por conta própria no Distrito Federal.
O projeto foi lançado na quarta-feira (12), na sede da Associação e Cooperativa Recicle a Vida, na QNM 28, em Ceilândia Norte. O Sesc-DF participou da apresentação da iniciativa, desenvolvida pela cooperativa com apoio estratégico do Instituto eureciclo e da Entidade Gestora Giro.
O foco agora é alcançar uma parcela da cadeia da reciclagem que nem sempre está vinculada a associações ou cooperativas. O Cata Vida pretende identificar e aproximar catadores autônomos de uma estrutura capaz de oferecer apoio socioassistencial, melhores condições para o exercício da atividade e alternativas para aumentar o valor obtido com os materiais recolhidos.
A Recicle a Vida já conta com 79 associados que trabalham diretamente na coleta e na separação de recicláveis. A nova iniciativa, porém, busca ultrapassar os limites do galpão e chegar aos profissionais que percorrem, individualmente, diferentes regiões do DF em busca de materiais que possam retornar à cadeia produtiva.
Além do atendimento aos trabalhadores, o projeto pretende reunir dados sobre a atividade dos catadores autônomos. A ideia é que as informações ajudem a compreender onde e como esses profissionais atuam e possam subsidiar, futuramente, políticas públicas de reciclagem inclusiva.
Resíduo vira fonte de renda
A participação do Sesc-DF no projeto está ligada a uma estratégia que a instituição já adota na gestão dos próprios resíduos. Em vez de concentrar o serviço em uma empresa convencional, o Sesc decidiu trabalhar com uma cooperativa de catadores, fazendo com que parte dos recursos destinados ao gerenciamento dos resíduos também circule entre trabalhadores da reciclagem.
Segundo Roger Lopes, analista de Suporte à Gestão em Sustentabilidade do Sesc-DF, a escolha permite agregar impacto social a uma obrigação ambiental. “Quando direcionamos esse trabalho para uma cooperativa, não estamos cuidando apenas da destinação do resíduo. Também ajudamos a gerar renda e oportunidade para famílias que vivem da reciclagem”, explica.
O resultado ganhou escala. A parceria responde atualmente pelo gerenciamento de mais de 500 toneladas de resíduos por ano.
Para a presidente da Recicle a Vida, Cláudia Maria Alves, a relação construída com o Sesc-DF contribuiu para fortalecer a atuação da cooperativa. “O Sesc tem caminhado conosco e demonstrado compromisso não apenas com a cooperativa, mas também com a sustentabilidade e com o meio ambiente”, afirma.
Roger avalia que a lógica adotada ajuda a mudar a própria maneira de enxergar aquilo que é descartado. “Um material que poderia simplesmente virar um problema passa a gerar resultado ambiental e social quando recebe tratamento e destinação adequados”, destaca.
Menos lixo no aterro, menor custo
A estratégia também chega às unidades do Sesc-DF. Todas contam com coleta seletiva e fazem a separação dos resíduos em três grupos: recicláveis, orgânicos e indiferenciados.
O destino de cada material muda a partir dessa separação. Papel, plástico, metal e outros recicláveis são preparados para retornar à cadeia produtiva. Os orgânicos seguem para compostagem e são convertidos em adubo. O aterro sanitário fica reservado para aquilo que não pode ser aproveitado.
Além de reduzir o descarte, o modelo pesa menos no orçamento. Segundo dados apresentados pela instituição, a política de separação representa uma economia superior a R$ 70 mil.
O motivo está na diferença entre os custos de destinação. Enquanto a reciclagem custa aproximadamente R$ 0,70 por quilo e a compostagem, R$ 0,68, o envio ao aterro chega a R$ 1,18 por quilo. “Separar corretamente significa mandar menos rejeito para o aterro. Com isso, conseguimos reduzir custos e, ao mesmo tempo, aproveitar melhor aquilo que ainda pode voltar ao ciclo produtivo”, explica Roger.
Com o Cata Vida, a proposta é levar parte dessa lógica a um universo maior de trabalhadores. Além de retirar materiais do caminho do aterro, o programa busca fazer com que o valor gerado pela reciclagem chegue também a quem está diariamente nas ruas coletando aquilo que ainda pode ser reaproveitado.
