Brasília ganha tons de branco com a última florada dos ipês

Fenômeno ocorre no fim do período seco e antecede a mudança de cenário com a chegada das chuvas

A paisagem do Distrito Federal entra em uma das últimas fases do espetáculo provocado pelos ipês durante a seca. Depois das tonalidades roxa, amarela e rosa, é a vez do branco ocupar ruas, áreas verdes e diferentes pontos da capital, marcando o encerramento do ciclo de floração dessas árvores.

O surgimento das flores ocorre justamente em um dos períodos mais críticos para a vegetação do Cerrado. É no fim da estiagem que o ipê-branco (Tabebuia roseo-alba) encontra nas condições de baixa disponibilidade de água um estímulo para iniciar o processo reprodutivo.

Antes da florada, a árvore perde completamente as folhas. A mudança reduz a transpiração e, consequentemente, a perda de água durante os meses de seca. Ao mesmo tempo, deixa os galhos livres para receber uma grande quantidade de flores.

Professor do Centro Universitário UNICEPLAC, o biólogo Marcus Vinicius Ferreira explica que esse comportamento funciona como um mecanismo de adaptação. A árvore direciona a energia acumulada para garantir a reprodução antes que o período seco termine.

A ausência das folhas também favorece outra etapa importante do ciclo. Com as flores mais expostas, abelhas e mamangavas conseguem encontrá-las com maior facilidade e participam do processo de polinização.

O momento exato da abertura dos botões pode variar conforme as condições climáticas. O calor característico do Planalto Central interfere no metabolismo da planta, e temperaturas mais altas podem antecipar a floração. Segundo Ferreira, períodos mais quentes também podem elevar a produção de néctar e aumentar a atração de polinizadores.

A falta de água exerce influência semelhante. Quando o estresse hídrico alcança níveis moderados ou intensos, a planta recebe um estímulo para entrar na fase reprodutiva antes da chegada das chuvas.

Em Brasília, essa transformação anual segue uma sequência entre as variedades de ipês. A Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) informa que os roxos normalmente aparecem primeiro. Na sequência, florescem os amarelos e os rosas, até que os brancos assumem a paisagem no fim da temporada.

A companhia não dispõe de uma equipe de botânica destinada especificamente ao mapeamento dessas árvores, mas acompanha o desenvolvimento das floradas e destaca a presença dos ipês na arborização da capital. A floração das espécies ocorre tradicionalmente durante a seca, entre junho e setembro.

O número de árvores plantadas ajuda a explicar a presença dos ipês em diferentes regiões do DF. Desde 2016, quando foi instituído o programa de Arborização do Distrito Federal, a Novacap contabiliza o plantio de 120.879 mudas de ipês de diferentes cores.

A variedade branca ganhou 7.663 novos exemplares somente entre 2023 e o início de 2025. Agora, parte dessas árvores contribui para um cenário que dura pouco, mas chama a atenção justamente pela intensidade.

Após a abertura dos botões, as pétalas começam a cair e passam a cobrir gramados e calçadas. O branco que primeiro toma as copas se espalha pelo chão, criando um contraste com o céu azul e a paisagem urbana e atraindo moradores, visitantes e fotógrafos.

A florada também funciona como um marcador natural da mudança de estação. Enquanto os últimos ipês encerram seu ciclo, a seca se aproxima do fim e o Distrito Federal entra na expectativa pelas primeiras chuvas.

Últimas